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REVISTA ÍCARO
Por Cristina Ramalho
Arizona nunca mais. Depois de se embrenhar pelo cerrado do Jalapão a gente começa a pensar que nossos brasileiríssimos cenários são bem mais cinematográficos do que aqueles de filme de cowboy do John Ford. Se nos desertos dos faroestes poeirentos os homens viris corriam em busca do ouro, nas veredas deste sertão a natureza, assanhada, é que reluz a ouro. No Jalapão até o capim é dourado e dele são feitas bolsas e cestarias que cintilam como moedas; as dunas de areia fininha, alaranjada, ganham tons fluorescentes quando bate o sol; e o Morro do Fumo, uma formação rochosa que é quase réplica do Mont Saint-Michel francês, vibra em matizes acobreadas como pepitas. Tudo tão brilhante que parece que acabou de cair do céu uma chuva de purpurina.
Um lugar assim é mais do que bonito. É um estado de espírito. Assim como na amplitude das planícies de Monument Valley os cowboys das fitas de Ford matutam sobre as próprias mágoas, as paisagens quase lunares do Jalapão beliscam a alma até dos tipos mais insensíveis. É tudo de uma beleza de fazer chorar. É andar horas e horas por estradinhas de terra numa bruta imensidão de campos, areias e pedras e não ver mais ninguém por ali. É não ter nada em volta e não sentir falta de coisa alguma. É a liberdade absoluta.
Com tal inspiração, você bem poderia bancar o vaqueiro errante e sair, mitologicamente, à procura do sentido da vida e de um lugar para armar sua tenda, mas dá trabalho demais. Carros que não sejam 4X4 não chegam a lugar nenhum. O celular não pega, não há orelhões, nada de placas de sinalização, não tem nem mesmo um bar do Bigode para tomar umas e outras. Melhor dar uma caprichada no seu roteiro assegurado por uma bela produção nos bastidores. Para isso lá está um camping charmoso, o Korubo, com os mimos necessários e equipe pronta a cuidar de destemidos comuns, como eu e você, e ainda desatolar o carro nos muitos lamaçais.
O Korubo, já que mergulhamos nas metáforas de cinema, está mais para Hatari do que para bangue-bangue. Lembra os acampamentos africanos de divertidos safáris, com jipes abertos, tendas amplas e fogueira amiga aquecendo a conversa antes de dormir. O pacote funciona assim: você vai descer do avião em Palmas e ali passará a noite em um hotel simpático, embora não prime pela arquitetura, como aliás nenhum edifício da capital do Tocantins. Logo na manhã seguinte a equipe do Korubo irá lhe buscar na cidade a bordo de um caminhão adaptado, com bancos confortáveis, ar-condicionado, geladeira e um teto aberto para o céu – que nesse sertão é daqueles que valem poemas.
Sete ou oito horas depois – incluindo parada para o almoço em Ponte Alta – chega-se ao acampamento em si. Pense só: tendas com camas de campanha, lençol, travesseiro e edredon. Empregados que arrumam tudo. O chuveiro é quente – graças à energia do Sol – e os banheiros não são de acanhar ninguém. São sanitários químicos, com cheirinho de detergente, iluminação (a bateria) e a suavidade extra de lencinhos umedecidos. O trabalho mais duro do dia é se esticar numa rede – que por sinal já está armada, debaixo das árvores e defronte do potável e lindo rio Novo. O melhor de tudo, porém, é mesmo a comida: Divino, o chef, faz jus ao nome de batismo inventando pratos para a turma gemer de prazer. Difícil eleger: no café da manhã, os bolos (de mandioca com coco, ou chocolate, ou o que seja) são mais gostosos do que o pão de queijo quentinho? A carne que veio dentro da abóbora no jantar ganha mais pontos do que a banana flambada servida no final do almoço?
Aqueles mais durões talvez achem que um lugar inóspito e de lindeza rústica feito o Jalapão não combina com essas perfumarias todas. Bobagem. O camping dá apenas o aparato confortável, mas alguns desconfortos se mantêm ecologicamente intactos. Mutucas, por exemplo. Trate de se besuntar com o melhor repelente, várias vezes, porque elas não descansam jamais. Outros bichos vêm e vão, como antas, cobras e...onças. Vimos umas pegadas frescas de onça nas dunas e aprendemos, com o corajoso guia Will, que gritar é o melhor (e único) remédio. Não foi preciso utilizá-lo para conferir.
Os guias, como o Will, o Manoel, o Edvartis e o Nilson são nativos de lá ou dos Lençóis Maranhenses, onde o Korubo arma suas barracas nos meses de outubro a março. Dão o charme adicional à coisa porque não têm a incontinência verbal de guias profissionais e se misturam, com sua graça naïf, à natureza. À noite, depois do jantar, eles mais o Arinilson, o Messias e o cozinheiro Divino podem lhe contar histórias – mas só se você pedir. A ordem no camping, dada pelo dono, o Luciano, é deixar cada turista na sua. Por se tratar de um grupo, os passeios e refeições têm de ser no horário e com todo mundo junto. Mas sempre dá para arranjar um espaço para curtir civilizadamente a solidão.
Pode ser no alto do Morro do Fumo – o castelo natural de rochas esculpidas pela erosão com 900 metros de altura – de onde se vê, em 360 graus, toda a majestade do cerrado a perder de vista. Ou nas muitas dunas, ou na encantadora Cachoeira do Formiga, ou nadando na água mineral do rio, ou em qualquer ponto nesse sertão que já foi mar e cujo horizonte parece não ter fim. Talvez até diante da jalapa, a delicadíssima flor que nasce no cenário bruto e dá nome ao lugar. Em algum momento no Jalapão você vai entender o que o deserto representa na alma de um cowboy. E sentirá o efeito na sua também.
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